Alguns Custos de Uma Violência

Por: Gilberto Macuácua

Desde a minha infância, assisti a diversas práticas de violência entre homens, mulheres, mulheres contra homens e homens contra as mulheres e alguns casos são de arrepiar até hoje.  A cerca de um mês, na cidade de Maputo aconteceu mais um destes casos e que fez-me colocar a mim mesmo a seguinte pergunta: Será que eu e/ou a sociedade teria ja feito os cálculos de quanto custa uma violência?

Meus amigos e minhas amigas, a violência é uma realidade no mundo e em particular no nosso País. Porém, a violência praticada pelo homem contra as mulheres é a que mais predomina. Segundo dados da ONU, divulgados em Novembro de 2010, uma em cada três mulheres no mundo foi objecto de violência física, manteve relações sexuais forçadas ou foi vítima de maus tratos na sua vida.

Em Moçambique, o Gabinete de Atendimento a Mulher e Criança Vítima de Violência, reportou cerca de onze mil casos de violência dos quais dez mil foram contra a mulher.

Estes dados, remetem-me de novo à historia real que pretendo hoje contar na qual usarei nomes fectícios para não ferir sensibilidades e por se tratar de pessoas muito próximas a mim.

O Samito (31) e a Ana (27), namoravam a cerca de 6 anos. Quando se conheceram, o Samito acabara de se tornar um bancário e a Ana estava no primeiro ano da faculdade. Passado algum tempo, o Samito, decidiu assumir algumas despesas da namorada como é o caso do pagamento das propinas na faculdade  e mais algum tempo, comprou uma viatura para ela. A Ana concluiu a faculdade e trabalha também numa instituição bancária.

O Samito, por diversas vezes, espancou a Ana e desculpou-se e tudo terminava bem nos dias seguintes. A Ana, sempre que sofresse violência, queixava-se à sogra e as irmãs do Samito, estas por sua vez conversavam com ele e “resolvia-se” o assunto.

A cerca de um mês, a Ana conversou com o Samito no sentido de terminarem com o relacionamento, uma vez que ela já não se sentia confortável na relação e por isso não era feliz e apontou como uma das causas a violência que tem sofrido constantemente. O Samito, não se conformou com o que acabara de ouvir e decidiu espancar a ela e desta vez ela foi parar ao Hospital em estado grave.  

A mãe da Ana, convence a ela para meter uma queixa numa das esquadras da polícia. Tal aconteceu e dia seguinte, o Samito recebeu uma notificação. No mesmo dia, o Samito comunica a mãe do sucedido, esta por sua vez procura a Ana e sua mãe para pedir-lhes que retirem a queixa. O Samito por sua vez, tentava o mesmo e falou diversas vezes com Ana ao telefone e foi até a casa desta mas, ela manteve-se firme e não cedeu ao pedido.

O Samito pede ao tio, irmão do pai para que o acompanhasse à esquadra no dia seguinte e marcaram para se encontrar la as 9 horas.

As 9 horas, o tio chega a esquadra, porém o Samito não. Por notar o atraso, o tio tenta sem sucessos, ligar para celular do sobrinho que dava a mensagem de estar fora de área. E este preocupado liga para mãe que por sua vez decide ir para o quarto do Samito e não o encontra. Minutos depois recebe uma chamada da avó do Samito que informa que o Samito estava em sua casa, num dos quartos e acabara de suscidar-se.

Toda a família do Samito ficou sabendo e culpabilizou a Ana do sucedido, apontando-a como a responsável pela morte do Samito. Esta, por sua vez, não aguentando com a pressão da família do Samito e descontrolada, tentou cometer um suicídio e passou a falar coisas sem sentido e no mesmo dia foi internada no hospital Psiquiátrico.

No dia do funeral, houveram tentativas para que ela fosse assistir ao funenal, mas a família do Samito recusou-se e até hoje aponta a Ana como a principal responsável pela morte do Samito.

Este é um dos vários casos que acontece no munco todo incluindo em Moçambique e foi na base do mesmo que me fiz a pergunta que acima coloquei: Será que eu e/ou a sociedade teria ja feito os cálculos de quanto custa uma violência?

Provavelmente teriamos uma postura contrária a prática de violência se fizessemos os cálculos de custos de uma violência. Várias famílias destoem-se, muitas crianças crescem traumatizadas, muitas mulheres ficam desfiguradas, transformadas de bonitas para feias, engraçadas para desgraçadas, de boas para mãs, ficam sem olho, braço, cheias de cicatrizes no corpo e no coração e são muitas vezes culpabilizadas pela sociedade, homens descontrolam-se e perdem a direcção da vida, perdem a oportunidade de viverem em harmonia e de serem felizes, muitos sonhos se destroem, etc... imaginem estas coisas a acontecerem diariamente! Que moçambique nós esperamos?  

Voltando às estatísticas apresentadas, remete-me a conclusão de que nós homens temos um papel a desempenhar para fim da violência, precisamos reflectir nos elevados custos da violência que afectam não só a mulher e criança mas sim, a nós homens também.

Por: Gilberto Macuácua

Comentários

  1. Quanto disperdicio, jovens que contribuem para o desenvolvimento da sociedade e ao mesmo tempo destroem.... onde vamos parar com tudo isso? Vamos por a mão na consciência.....pena do jovem que tem uma família desse género, pobre miúda...

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  2. A nossa sociedade ainda desconhece a importância de um psicólogo ou um analísta na vida de um indivíduo, a medida que as influencias dos outros paises vao se plantando na nossa cultura acredito que iremos ver que há problemas que ao sentar com um analista é possível resolver e ultrapassar porque o que leva uma pessoa ao suicideo? so podem ser perturbacoes que sozinho nao pode ultrapassar, é mt triste

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  3. Filipe Jorge - Beira4 de maio de 2011 às 20:41

    Alo Gilberto,

    De facto a Violencia tem um custo inreparavel a Violencia, pude ter a oportunidade deste artigo que me enviaste épa... São casos notaveis no nosso dia a dia... De facto temos que mudar o cenario.

    Muito obrigado pela mensagem, continua nesta luta meu irmão e estamos juntos neste desafio " Luta Contra a Violencia".

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  4. Realmente! Temos nocao de quanto custa para a sociedade a violencia domestica?"

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  5. Gilberto,
    Tenho acompanhado este trabalho embora nao intervindo directamente. Parabéns e... força. É preciso Homens assim, que compreendem o papel do Homem para parar com este ciclo de violência que apssa de geração em geração pois isso é o que se ensina às crianças - e elas repetem mais tarde!

    Mas às Mulheres cabe também um importante papel - o de se valorizarem a si mesmas e de não aceitarem, acreditar que elas valem muito e não podem ser tratadas assim...

    Abraço e sucessos nesta luta que não é fácil

    Carmen

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