Violação Sexual de Menores
Cerca de 450
casos de violação sexual de menores foram registados pelos Gabinetes de
Atendimento a Mulher e Criança Vítima de
Violência durante o ano passado a nível da cidade de Maputo.
Estes dados, foram
tornados público na passada sexta-feira pela WLSA Moçambique (Women and Law in
Southern Africa Research and Education Trust), no âmbito do lançamento do livro
intitulado “Violação Sexual de Menores –
Um estudo de caso na cidade de Maputo” da autoria de Conceiçao Osório com a
colabaração do Edson Mussa.
Este livro, analisa
a violação sexual como uma dimensão da violência sexual no quadro das relações de
poder, que têm a ver com a idade e também com a estrutura de género. Refere
ainda que, a violação sexual pode ocorrer tanto com rapariga como com rapazes e
que fica claro pelos estudos realizados, que no caso das meninas verifica-se uma
naturalização de violência sexual que é intimamente relacionada com a
construção das identidades de género o que contribui para uma mã qualidade de
vida destas e abertura de um caminho incerto sem uma perspectiva de vida
saudável com todos ou quase todos direitos grosseiramente violados.
Uma auscultação
realizada pelo MEC junto das Unidades de Género (Ministério da Educação e Cultura,
2008), citado neste livro, refere que em
cinco províncias do país, 70% dos membros deste sector e das alunas
entrevistadas afirmaram que, nas escolas, muitos professores assediam e abusam
sexualmente das alunas e quemuitos desses casos resultam em gravidez. Também
nesse relatório, é mencionada a existência de “promessa de casamento” que
provoca abandono da escola e a entrega das meninas aos homens logo que a
primeira menarca tem lugar. No entanto, existe um penoso silêncio que encobre
os casos de violação sexual, não tendo sido ainda possível elaborar informação
estatística sobre o assunto nem desencadear medidas punitivas. Mais uma vez é
interessante constatar a impunidade destes casos e a cumplicidade das famílias.
Neste estudo o
conceito de violação sexual foi adoptado numa perspectiva de violação de
direitos humanos, procurando romper com o silêncio em que muitas crianças vivem
e naturalizam as formas continuadas de violência sexual, principalmente quando
ela se produz em contexto familiar.
Para além das
políticas e da legislação em vigor em Moçambique para a promoção dos direitos
das crianças, é conferida neste estudo uma relevância particular às
representaçoes e práticas seguidas pelos actores que trabalham nas instituições
de saúde, polícia e nas organizações da sociedade civil que têm como objecto de
trabalho a violação sexual de menores, onde, é notória a falta de articulação
na coordenação inter e intrasectorial onde se verificam elevados níveis de
roptura dos fluxos de informação e as formas diferenciadas de identificar e
caracterizar a violação sexual.
Por outro lado, a
moldura do actual Código Penal, considera violação sexual como crime público
quando cometida contra crianças menores de 12 anos de idade, fica evidente a
ausência de um padrão que defina claramente os conceitos de criança e menor de
idade, criando assim uma oportunidade para o incumprimento da lei, tanto por
parte das famílias e das comunidades como das instâncias policiais e da
justiça, responsáveis pela sua aplicação.
O caso flagrante
que serviu de estudo de caso para o livro da Osório, deu-se na cidade de Maputo
onde uma criança de sexo feminino de 6 anos de idade, contraiu o vírus de
HIV depois de ser violada duas vezes por
um homem de nome Belmiro, de 35 anos de idade, residente no bairro das Mahotas.
Este caso, foi
reportado na altura por alguns órgàos de comunicação social, o mesmo passou
pelas unidades sanitárias e policiais da cidade de Maputo, onde se verificaram
muitas lacunas no seu tratamento.
Foi no dia 24 de Janeiro de 2011, que a mãe
da criança apercebeu-se da existência de sangue no orgão sexual desta, no
momento em que estava a dar o banho. No mesmo dia, a mãe dirigiu-se ao centro
de saúde da polana caniço onde se verificou que tinha lesões com grandes sangramentos
e a seguir dirigiu-se para posto policial existente naquela unidade sanitária para
fazer a denúncia, onde foi lhe passada uma guia para apresentar na décima
quarta da PRM. O argumento era de que esta era a esquadra de jurisdição na zona
onde se situa a residência da criança. O centro de saúde, por sua vez, transferiu
o caso para o Hospital Geral de Mavalane. Neste hospital, não foi feita a
profilaxia, o que não é um procedimento normal tratando-se de um caso de
violação sexual. A profissional de saúde em serviço limitou-se a passar uma
outra guia de transferência para os serviços de psicologia da mesma unidade
sanitária, nesta guia, datada de 25 de Janeiro de 2011, referiu-se que o motivo
da transferência era a violação sexual sem penetração. No dia em que a mãe
e criança dirigiram-se ao Hospital Geral
de Mavalane chegaram no local cerca das 9:30h e foram atendidas por volta das
19horas, uma clara violação de carácter de urgência estabelecida para casos de
violação sexual. Desde então, o assunto teve contornos e contornos, a mãe da
vítima tem estado para cima e para baixo para as unidades sanitárias, esquadras
da polícia procurando uma resposta à altura do problema da sua filha e pelo
menos até ao dia 13 de Abril de 2012, nada avançou de maneiras que o violador
ainda se encontra solto e a passear a sua classe pelo bairro das Mahotas, sem
que ninguém o aborde para uma responsabilização pelo sucedido. É caso para
questionar: Que futuro se reserva para esta e outras tantas crianças que passam
pelos mesmos problemas em Moçambique?
Saudacoes
Gilberto Macuacua
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