Pacientei e agora chega!
“Duas horas para buscar água?... Isso só pode ser um abuso de confiança..”.
Em Dezembro de
2011, fui de férias à província de Gaza, concretamente no distrito de Guijá.
O meu tio, que
la reside, decidiu apresentar-me alguns amigos com que ele convive e dentre
eles fomos a casa do senhor Z. Mandlate.
Este, estava
visivelmente transtornado porque a mulher tinha saido a cerca de 2 horas a
busca de água potável.
- Hey irmão, entra e seja bem vindo....
- Este é meu sobrinho, vem de Maputo ....
- Ok. Prazer meu filho. Só que, infelizmente estás a
vir num dia muito difícil. Não posso vos servir nada para comer, minha esposa
desde que saiu por volta das 11:30h, veja que agora são quase 13:30h e não
voltou ainda....
- Para onde ela foi?
- Buscar água, mas pora! Duas horas para buscar
água?... Isso só pode ser um abuso de confiança... Ela vai ter que me explicar
bem essa história quando chegar. Está cada dia pior, ontem e antes de ontem foi
a mesma coisa. Pacientei e agora chega! Ela vai me conhecer bem hoje.
Fiquei espantado
quando o meu tio, concordou com o amigo que por sua vez, sugeriu que o amigo a
castigasse pelo facto dela estar a demorar chegar a casa.
As atitudes
destes 2 homens remetem-me ao seguinte:
Alguns dos
papeis socialmente construidos que definem o que é ser um homem e o que é ser
uma mulher no nosso país influenciam para práticas negativas como é o caso da
violência e este exemplo, mostra que a mulher é a maior vítima. Muitos homens,
sentem-se no direito castigar uma mulher quando na óptica deles, faz algo de
errado como neste caso concreto, o tempo que ela demorou buscando água. Infelizmente,
a grande parte da sociedade pensa da mesma maneira seja homens ou mulheres,
isso faz com que a mesma de certa forma “legitime” estes actos vergonhosos
praticados por homens contras as mulheres. E o facto da tarefa de ir buscar
água naquela comunidade ser exclusivamente da mulher, os homens não sabem quais
são contornos para se conseguir um balde água para casa e quando se verifica
uma demora acham que ela não está a cumprir devidamente com a tarefa, o que
culmina muitas vezes com castigo.
Em conversa com
alguns residentes, percebi que antes, as mulheres buscavam água muito perto o
que tornava reduzido o seu tempo de ausência em casa. Porém, devido as mudanças climáticas, as fontes estão
a secar e as mulheres tem de percorrer grandes distâncias para buscar água
potável e os maridos não sabem do problema e pelos vistos o meu tio e o amigo
nunca procurarm saber também. O facto que, é as mudanças climáticas estão a
influenciar para a escassez de água e consequentemente a ter efeitos negativos na vida de homens e
mulheres. Passeando um pouco pela vila, foi possivel assistir a esta triste
realidade onde é notável que esta crise, recai mais nas mulheres que são elas
que caminham longas distâncias a busca de água e algumas vezes com crianças nas
costas, debaixo de sol internso para o no final, serem penalizadas pelos
maridos por causa da demora.
Com este facto
concluo que, existe uma relação muito íntima entre as mudanças climáticas e o
género.
Na minha
opinião, é necessário que todas as estruturas de liderança deste país estejam a
ocorrente dos efeitos das mudanças climáticas e saibam até que ponto afectam as
relações de género e desta forma, procurarem mecanismos de minimizar o problema
que deixado como está, pode aumentar o sofrimento das moçambicanas e dos
moçambicanos.
Por:
Gilberto Macuácua
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