“Fiz as limpezas no meu quintal e agora estou em problemas!”
Por: Gilberto Macuácua
Tarde
de Agosto de 2011, estava eu em Cidade de Nampula, norte de Moçambique com
intuito de moderar uma palestra sobre “Masculidades e Violência”.
Numa
sala replecta de homens e mulheres, na sua maioria jovens estudantes. Nos
primeiros minutos do debate, os participantes relatavam e comentavam experiências
relacionadas com as masculinidades e violência que acontecem naquela província
de uma forma geral. Porém, Amisse Jr. quebrou essa tendência, quando pediu a
palavra, falou da sua própria experiência tendo começado pronunciando as
seguintes palavras:
- Fiz as limpezas no meu quintal e agora estou
em problemas!
Amisse,
32 anos de idade e 9 de casado, contou a todos os presentes na palestra que, era
um telespectador assíduo do programa Homem que é Homem transmitido pela
Televisão de Moçambique. Este programa aborda dentre vários problemas, as
masculinidade e sua relação com a violência, numa abordagem de homem para
homem. Ele disse que aprendeu neste programa, que era bom um homem engajar-se
em tarefas domésticas.
Ele,
decidiu implementar algumas mudanças na sua relação com a parceira que, uma vez
que, percebera que ela ficava sobrecarregada com as tarefas domésticas e que, por
outro lado, ficou sensibilizado com alguns depoimentos de homens na televisão, que
tem já implementado esta prática nas suas vidas.
O
Amisse contou de forma resumida o que acontecera. O depoimento dele chamou-me à
atenção, o que levou-me a propor-lhe uma conversa a dois logo que terminou a
palestra. Quando sentamos mais tarde num dos cafés da cidade, ele contou-me o
sucedido com mais detalhes. A conversa foi muito aberta e franca como se nos
conhecêssemos já a algum tempo.
Ele
disse que, acordou de manhã e teve uma ideia fazer algo para agradar a mulher que
seria uma surpresa. Pegou em ancinho e começou a fazer a limpeza do seu
quintal. A esposa viu e reagiu imediatamente, dizendo: - Amisse, estás a fazer o quê? Queres me colocar em problemas com a tua
mãe? Desde quando você pega em ancinho p’ra varrer aqui em casa? Etc. Ele:
- Não meu amor, nós homens, podemos
varrer o quintal e quanto a mamã, não te preocupes que eu falarei com ela e vai
entender.
O
Amisse, passou a fazer as limpezas no seu quintal, mesmo sem o consentimento
total da esposa e segundo ele, ganhou o gosto de realizar esta tarefa e passou
inclusive a engomar as roupas que era lavada pela esposa. Disse ainda que,
descobriu um dom que estava escondido dentro de si e aquelas actividades o
deixavam muito bem-disposto para enfrentar o dia como se de uma terapia se
tratasse e a esposa, começou a habituar-se com a ideia porém, com algumas
reservas.
Uma
semana antes da palestra
Era
final da tarde, quando a mãe do Amisse chegou a casa do casal para visitar e
passar o final de semana. No dia seguinte, o Amisse acordou e como habitual,
foi as limpezas e a reacção da mãe não tardou. Esta, foi a cozinha onde a nora
dela encontrava-se a preparar o pequeno-almoço e chegou já falando: - Estás doente? - Não mamã. – Então porque o Amisse está a varrer o
quintal? Afinal, quem é mulher de
quem aqui? A esposa do Amisse tentou em vão, dar as explicações à sogra que
se exaltava cada vez mais, até que o Amisse se apercebeu do barrulho e se
aproximou das duas e quando chegou, a esposa foi desesperadamente perguntando
ao marido: - É esta a armadilha que
estavas a preparar para mim Amisse? Já conseguiste colocar a tua mãe contra
mim… Ele por sua vez, entrou na discussão posicionando-se contra a mãe. A
discussão passou a ser triangular e até a data da realização da palestra não se
tinha resolvido e foi por isso que, ele decidiu pedir ajuda publicamente.
Depois da nossa conversa, o Amisse disse que se sentia bem aliviado e confiante
de que o diferendo triangular iria se resolver.
Este
problema remete-me ao seguinte: as expectativas da sociedade em relação aos
papeis de homens e mulheres tem sido acompanhadas por elevados custos penalizadores
tanto para os homens assim como para as mulheres. A sociedade pouco tem
reflectido sobre estes custos se usarmos o exemplo da família de Amisse, esta
procurou em nome da tradição/cultura reforçar e reproduzir esses papéis de
forma quase que cega.
Não
cabe somente ao Amisse, a esposa ou mesmo a mãe dele reflectirem sobre os
papéis atribuídos aos homens e as mulheres pela sociedade para perceberem até
que ponto estes reforçam as desigualdades, até que ponto esta forma de ser e de
estar dos homens e das mulheres tem sido benéfica e ou nociva a eles e a elas, mas
sim, cabe à toda a sociedade moçambicana a todos os níveis.
É
importante também, que a sociedade perceba que os papéis por ela construídos
que moldam os homens e as mulheres são possíveis de serem desconstruídos e a
partir daí, podem-se construir novos homens e mulheres que pensam e agem de
forma mais igualitária no que respeit aos direitos humanos.
Saudações
Gilberto
Macuácua
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